O impacto da mentira na comunicação ocupa um lugar central no debate sobre a comunicação profissional. Em contextos de pressão mediática, objetivos comerciais exigentes ou crises inesperadas, a mentira surge frequentemente como um atalho tentador. Contudo, os seus efeitos raramente se esgotam no imediato. Pelo contrário, acumulam-se ao longo do tempo e fragilizam a confiança, que continua a ser o principal ativo de qualquer estratégia comunicacional.
Este artigo analisa o impacto da mentira na comunicação com especial atenção a três práticas recorrentes: mentir para limpar a imagem de um cliente, mentir para vender um produto inexistente e mentir para desviar atenções durante uma crise. A abordagem é deliberadamente crítica e fundamentada, procurando distinguir ganhos aparentes de custos reais, bem como clarificar as consequências estruturais dessas opções no exercício da comunicação profissional.
O que se entende por mentira na comunicação
No contexto profissional, mentir não se limita à formulação de uma afirmação factualmente falsa. Inclui igualmente a omissão deliberada de informação relevante, a distorção de dados verificáveis e o enquadramento intencionalmente enganador de acontecimentos, de modo a conduzir o público a interpretações erradas. Estas práticas distinguem-se de forma clara da comunicação estratégica legítima, cujo propósito consiste em selecionar e hierarquizar informação verdadeira, sem manipular o seu significado nem induzir o público em erro.
A literatura em comunicação, relações públicas e ética profissional é consistente num ponto central: quando a intenção comunicacional passa a ser enganar, a comunicação deixa de servir o interesse público e compromete a sua função social.
Nesse momento, deixa também de proteger o emissor. Pelo contrário, passa a operar contra a sua própria credibilidade, fragilizando a confiança dos públicos, deteriorando relações institucionais e aumentando a exposição a riscos reputacionais, legais e profissionais que dificilmente podem ser revertidos a médio prazo.
Confiança pública e o contexto atual
O impacto da mentira na comunicação não pode ser analisado isoladamente; deve ser entendido à luz do contexto social, económico e mediático contemporâneo. Os níveis de confiança em empresas, instituições e líderes encontram-se em declínio, conforme demonstram relatórios internacionais recentes, como o Edelman Trust Barometer, que evidencia um aumento da vigilância pública e uma menor tolerância a incoerências ou manipulação informativa.
Num ambiente caracterizado por desconfiança generalizada, as estratégias comunicacionais que recorrem a falsidades ou meias-verdades tornaram-se estruturalmente mais frágeis. A exposição pública é agora amplificada por múltiplos canais, incluindo redes sociais e plataformas de verificação de factos, e qualquer incoerência é rapidamente percebida e divulgada. Como consequência, a penalização reputacional não é apenas mais frequente; tende a ser imediata e duradoura, afetando não só a marca ou organização, mas também a credibilidade do profissional responsável pela assessoria de imprensa.
Este cenário reforça a importância de uma comunicação baseada em transparência, consistência e factos verificáveis, como forma de mitigar o impacto negativo de erros e de construir uma reputação resiliente perante públicos cada vez mais exigentes.
Mentir para limpar a imagem de um cliente
Na assessoria de imprensa, a tentação de proteger um cliente recorrendo à ocultação de factos ou à distorção da realidade é frequente. No curto prazo, estas práticas podem parecer eficazes, reduzindo a atenção mediática negativa ou mitigando críticas imediatas. Contudo, o impacto da mentira na comunicação manifesta-se rapidamente de forma adversa, afetando tanto a credibilidade do profissional como a reputação do próprio cliente.
Quando uma falsidade é identificada, a confiança depositada pelo público, pelos jornalistas e pelos restantes stakeholders é abalada. Este efeito não se limita a um incidente isolado: contamina relações futuras, reduz a margem de credibilidade concedida à fonte e compromete a capacidade do assessor em gerir crises subsequentes. A literatura em relações públicas confirma que a utilização de mentiras para proteger a imagem de um cliente tende a gerar custos reputacionais muito superiores aos benefícios imediatos.
Uma alternativa ética e eficaz passa pela transparência responsável, que exige maior rigor e planeamento. Admitir factos verificáveis, contextualizar responsabilidades e propor medidas corretivas permite preservar relações profissionais, reforçar a confiança junto dos meios de comunicação e limitar os danos a médio e longo prazo. Em termos estratégicos, esta abordagem fortalece o papel da assessoria de imprensa como mediadora confiável entre o cliente e o público, reduzindo o risco de impactos reputacionais permanentes decorrentes de informações falsas.
Mentir para vender um produto que não existe
Na assessoria de imprensa e na comunicação corporativa, a falsificação de informações sobre produtos, serviços, competências ou experiências constitui uma forma clara de comunicação enganosa. Embora possa gerar benefícios imediatos, como vendas rápidas ou notoriedade temporária, o impacto da mentira na comunicação é estruturalmente negativo, corroendo a confiança do público e comprometendo a credibilidade do emissor.
Consumidores ou clientes expostos a promessas falsas revelam menor propensão para confiar novamente na marca ou na instituição. No ecossistema digital, esta desconfiança multiplica-se rapidamente através de avaliações públicas, redes sociais e plataformas de reclamação, tornando a reposição da reputação dispendiosa, incerta e demorada.
Do ponto de vista estratégico, uma abordagem transparente sobre limitações de produtos, serviços, competências ou disponibilidade de experiências demonstra maturidade organizacional e competência profissional na assessoria de imprensa. Apesar de poder reduzir ganhos imediatos, esta honestidade fortalece a credibilidade da marca, consolida relações de confiança com os públicos e reduz significativamente o impacto da mentira na comunicação em crises futuras.
Planeamento rigoroso, contextualização das restrições e definição clara das expectativas do público tornam-se, assim, instrumentos essenciais para preservar reputação e autoridade, reforçando o papel do assessor como mediador confiável entre a organização e os seus stakeholders.
Mentir para desviar atenções numa crise
Em contextos de crise, é comum recorrer à estratégia de desviar responsabilidades para terceiros. Uma prática frequentemente observada mesmo em organizações com assessoria profissional. Na assessoria de imprensa, esta tentação (conhecida na literatura como scapegoating) consiste em atribuir culpa a indivíduos ou grupos externos na tentativa de reduzir a percepção de responsabilidade direta da organização. Contudo, estudos académicos em comunicação e gestão de crises indicam que esta prática é estruturalmente ineficaz e pode agravar o impacto da crise.
O público tende a interpretar a transferência de culpa como uma tentativa de manipulação, diminuindo a confiança na instituição e na equipa de comunicação. Quando a mentira é descoberta ou percebida, a avaliação da resposta organizacional torna-se mais negativa do que seria com uma admissão proporcional de responsabilidade acompanhada de ações corretivas e transparentes.
Em termos de assessoria de imprensa, recorrer ao scapegoating compromete a credibilidade do profissional e reduz a margem de confiança junto de jornalistas, stakeholders e públicos estratégicos.
Comunicar de forma eficaz em situações de crise exige rigor factual, consistência e demonstração concreta de aprendizagem institucional. Uma assessoria de imprensa que privilegie transparência e contextualização responsável consegue minimizar danos reputacionais e reforçar a confiança a médio e longo prazo. Neste sentido, a mentira, ao contrário do que possa parecer, não resolve a crise; amplia o seu impacto na comunicação, fragiliza a reputação institucional e compromete relações essenciais com os públicos-chave.
Por que é que a mentira continua a ser usada?
Apesar das evidências sobre o impacto da mentira na comunicação, a falsidade persiste em contextos profissionais, incluindo na assessoria de imprensa, por várias razões interligadas. Primeiro, existe a pressão por resultados imediatos: crises, metas de vendas ou cobertura mediática exigem respostas rápidas, e a mentira parece oferecer uma solução expedita.
Segundo, muitos comunicadores ainda partem da percepção errada de que o público não verifica ou não confronta a informação. Terceiro, prevalece a crença de que é possível manter o controlo narrativo a longo prazo, ajustando a percepção pública conforme interesse estratégico.
Na realidade atual, estas premissas encontram-se cada vez mais desmentidas. O fácil acesso à informação, o escrutínio intensificado dos media e a vigilância ativa nas redes sociais reduzem drasticamente a eficácia de estratégias baseadas na mentira. Na assessoria de imprensa, recorrer a falsidades não apenas aumenta o risco de exposição pública, como compromete a credibilidade do assessor e amplifica os efeitos negativos a nível reputacional.
Consequentemente, qualquer ganho aparente obtido com a mentira é, na maioria das vezes, efémero, enquanto os custos (reputacionais, estratégicos e legais) tendem a ser duradouros e difíceis de reparar. Uma comunicação responsável, fundamentada em rigor factual e transparência, continua a ser a forma mais eficaz de gerir crises e proteger a confiança junto dos stakeholders.
Impactos acumulados da mentira na comunicação
Os efeitos da mentira raramente são isolados. Acumulam-se em várias dimensões: perda de confiança, deterioração de relações profissionais, aumento do risco legal e fragilização da marca ou da instituição.
Mais relevante ainda, normalizam práticas internas que desvalorizam o rigor e a responsabilidade, criando culturas organizacionais vulneráveis a crises recorrentes. E isso, naturalmente, terá reflexos no trabalho desenvolvido pela assessoria de imprensa!

Mitos associados ao impacto da mentira na comunicação
Um dos equívocos mais recorrentes na comunicação profissional é a ideia de que pequenas mentiras são toleráveis ou até esperadas pelo público. Parte-se do pressuposto de que uma ligeira distorção da realidade não compromete a relação de confiança. No entanto, a evidência empírica e a experiência prática apontam no sentido oposto. A confiança não se perde apenas quando a mentira é grave, perde-se quando o público percebe que a verdade foi tratada como variável negociável. Constrói-se lentamente, mas colapsa ao primeiro sinal de instrumentalização.
Persiste também a convicção de que a verdade é, por natureza, prejudicial para quem comunica. Este argumento confunde desconforto com dano. A comunicação assente em factos verificáveis, mesmo quando expõe fragilidades ou erros, tende a ser interpretada como um sinal de maturidade e responsabilidade. Em contraste, narrativas artificiais podem oferecer proteção momentânea, mas fragilizam irremediavelmente a legitimidade do emissor quando confrontadas com a realidade.
Conselhos para uma comunicação responsável
Uma estratégia comunicacional sólida, sobretudo no contexto da assessoria de imprensa, assenta em três pilares essenciais: veracidade factual, coerência ao longo do tempo e capacidade real de assumir responsabilidades. Estes princípios não eliminam o risco inerente à exposição pública, mas mitigam de forma significativa o impacto da mentira na comunicação, protegendo a credibilidade do cliente e a autoridade profissional do assessor.
Na prática da assessoria de imprensa, o investimento em processos internos de validação da informação e na formação ética das equipas de comunicação não deve ser encarado como um luxo ou um imperativo meramente moral. Trata-se de uma decisão estratégica, com efeitos diretos na confiança dos jornalistas, na qualidade das relações institucionais e na prevenção de crises cujo agravamento resulta, muitas vezes, de informação falsa ou imprecisa.
O impacto da mentira na comunicação é frequentemente subestimado em contextos de assessoria de imprensa, sobretudo quando a pressão por resultados imediatos leva a decisões tácticas discutíveis. A mentira pode parecer funcional num primeiro momento, adiando o escrutínio ou suavizando a exposição mediática. No entanto, revela-se estruturalmente disfuncional para a comunicação profissional, já que os ganhos de curto prazo são, quase sempre, anulados por perdas reputacionais profundas e duradouras.
Uma assessoria de imprensa responsável não equivale a exposição imprudente nem a transparência ingénua. Pelo contrário, pressupõe um compromisso firme com a verdade verificável, com a contextualização rigorosa dos factos e com o respeito pelos públicos e pelos media. Num cenário marcado por desconfiança crescente, compreender e prevenir o impacto da mentira na comunicação deixou de ser apenas uma exigência ética. Tornou-se uma condição estratégica para a credibilidade e sustentabilidade da própria profissão.
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