Portugal enfrenta, com uma frequência crescente, episódios de calor extremo, nomeadamente ondas de calor em Portugal, que colocam desafios significativos à saúde pública, à proteção civil e ao funcionamento normal das comunidades. De acordo com o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), as alterações climáticas estão a aumentar a intensidade, a duração e a frequência das ondas de calor em várias regiões do mundo, incluindo o sul da Europa.
Neste contexto, a gestão das ondas de calor em Portugal não se limita à dimensão meteorológica ou operacional. Envolve também uma dimensão crítica de comunicação pública. Uma estratégia de comunicação eficaz torna-se determinante para transformar alertas técnicos em orientações compreensíveis e acionáveis para a população.
Contudo, uma onda de calor não representa apenas um fenómeno atmosférico extremo. Constitui igualmente um desafio de comunicação. A eficácia das medidas adotadas pelas autoridades depende, em grande medida, da qualidade da estratégia de comunicação, nomeadamente da capacidade de transmitir informação clara, coerente e atempada, capaz de orientar comportamentos e reduzir riscos de forma efetiva.
Durante um episódio prolongado de temperaturas extremas, a informação assume um papel estratégico, e o assessor de comunicação é o seu principal executante.
A população necessita de saber o que está a acontecer, quais os riscos existentes, quem está mais vulnerável e que medidas deve adotar para proteger a sua saúde e a dos outros. Ao mesmo tempo, importa evitar mensagens contraditórias, alarmismo injustificado ou excesso de informação que possa gerar desinteresse ou confusão.
É neste contexto que a estratégia de comunicação assume uma importância decisiva e o assessor de comunicação deve representar um papel central na articulação com os meios de comunicação social.
Não basta divulgar recomendações ocasionais nas redes sociais ou emitir comunicados sempre que o calor aumenta. A comunicação deve integrar um plano estruturado, coordenado entre diferentes entidades e adaptado à evolução da situação.
Este artigo analisa como deveria ser construída uma estratégia de comunicação para responder a uma onda de calor prevista para dez dias consecutivos, identificando o papel das entidades públicas, os princípios da comunicação de risco e as boas práticas que podem contribuir para proteger vidas humanas.
Índice
TogglePorque é que uma onda de calor é também uma crise de comunicação?
Quando se fala em ondas de calor, a atenção centra-se frequentemente nas temperaturas máximas previstas ou nos recordes climatológicos. No entanto, a dimensão meteorológica representa apenas uma parte do problema.
O impacto real das ondas de calor em Portugal depende também da forma como a população interpreta o risco e ajusta os seus comportamentos em conformidade. É precisamente neste ponto que a comunicação pública assume um papel determinante, exigindo uma estratégia de comunicação e uma assessoria de comunicação e de imprensa capazes de traduzir dados técnicos em mensagens claras, consistentes e acionáveis.
A literatura científica sobre comunicação de risco demonstra que a simples exposição à informação não garante mudança de comportamento. A perceção do risco é moldada por múltiplos fatores, incluindo experiências anteriores, níveis de confiança nas instituições, contexto social, idade, literacia em saúde e exposição mediática. Isto significa que a eficácia das mensagens depende tanto do conteúdo como da forma e do canal através do qual são difundidas.
Neste enquadramento, o papel do assessor de comunicação e do assessor de imprensa torna-se central. Não se trata apenas de divulgar informação, mas de estruturar narrativas coerentes entre entidades, antecipar interpretações erradas, garantir consistência terminológica e assegurar que a mensagem chega aos diferentes públicos através dos canais mais adequados.
Consequentemente, uma estratégia de comunicação eficaz em contextos de onda de calor não se limita a informar. Procura, de forma deliberada, transformar informação em ação, reduzindo a distância entre o aviso institucional e o comportamento efetivo da população.
Este princípio é particularmente importante porque muitos dos efeitos mais graves associados ao calor extremo podem ser prevenidos através da adoção de medidas relativamente simples, como:
- aumentar a ingestão de água;
- evitar exposição solar durante as horas de maior calor;
- reduzir esforço físico intenso;
- proteger crianças, idosos e pessoas com doenças crónicas;
- reconhecer sinais precoces de exaustão pelo calor.
Se estas recomendações chegarem tarde, forem contraditórias ou não forem compreendidas pelos destinatários, o risco aumenta significativamente.
Assim, uma onda de calor transforma-se inevitavelmente num desafio de comunicação pública.
Comunicação de risco: muito mais do que divulgar recomendações
A Organização Mundial da Saúde define a comunicação de risco como um processo contínuo de troca de informação entre autoridades, especialistas e população durante situações que representam uma ameaça para a saúde pública.
Este conceito distingue-se de forma clara da comunicação institucional tradicional. Enquanto esta última tende a ser planeada com horizontes temporais mais alargados e objetivos de sensibilização, a comunicação de risco exige resposta imediata, elevada precisão e capacidade de adaptação constante à evolução do contexto.
Objetivos de uma estratégia de comunicação em ondas de calor
Uma estratégia de comunicação eficaz durante ondas de calor em Portugal deve cumprir vários objetivos em simultâneo, articulados de forma coerente entre entidades e suportados por uma estratégia de comunicação robusta, onde a assessoria de comunicação e a assessoria de imprensa desempenham um papel central na consistência das mensagens e na sua disseminação.
Aumentar a perceção adequada do risco
Em primeiro lugar, é necessário aumentar a perceção adequada do risco. Existe frequentemente uma tendência para desvalorizar o calor extremo por se tratar de um fenómeno aparentemente familiar. No entanto, episódios prolongados podem provocar desidratação grave, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, golpes de calor e aumento da mortalidade, sobretudo entre grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com doenças crónicas.
Reduzir a incerteza e reforçar a confiança
Em segundo lugar, importa reduzir a incerteza. Sempre que possível, as entidades devem comunicar de forma transparente o que é conhecido, o que permanece incerto e quais os cenários mais prováveis. Esta clareza não fragiliza a comunicação; pelo contrário, reforça a confiança pública e contribui para limitar a propagação de rumores ou interpretações incorretas.
Promover comportamentos concretos e acionáveis
or último, a comunicação deve promover comportamentos concretos e facilmente executáveis. Formulações genéricas como “tenha cuidado com o calor” tendem a produzir um impacto reduzido. Em contrapartida, orientações específicas aumentam significativamente a probabilidade de adoção.
Exemplos de recomendações eficazes incluem:
- Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede.
- Mantenha persianas fechadas durante as horas de maior calor.
- Evite atividades físicas entre as 11h00 e as 17h00.
- Contacte familiares idosos que vivam sozinhos.
- Nunca deixe crianças ou animais dentro de veículos estacionados.
Quanto mais clara e operacional for a recomendação, maior será a probabilidade de ser seguida, traduzindo-se em ganhos reais em saúde pública e segurança.
O papel da coordenação institucional
Uma das maiores fragilidades observadas em diversas situações de emergência consiste na fragmentação da comunicação. Quando diferentes organismos transmitem mensagens distintas ou utilizam linguagens diferentes, aumenta o risco de desinformação.
Portugal dispõe de várias entidades com responsabilidades complementares.
O IPMA acompanha a evolução meteorológica e emite avisos oficiais.
A Direção-Geral da Saúde traduz a informação meteorológica em recomendações para proteção da saúde.
A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil coordena a resposta operacional em situações de maior gravidade.
O Governo assegura a coordenação política e institucional.
As autarquias implementam medidas adaptadas à realidade local.
As juntas de freguesia desempenham um papel particularmente relevante na comunicação de proximidade junto das populações mais vulneráveis.
Cada uma destas entidades possui competências distintas.
No entanto, do ponto de vista do cidadão, todas estas intervenções integram uma única resposta pública.
Por isso, uma estratégia de comunicação eficaz exige coerência rigorosa entre mensagens, calendário de divulgação e linguagem utilizada.
Quando existem recomendações divergentes ou comunicações desfasadas no tempo, a credibilidade institucional é colocada em causa. Em consequência, pode diminuir a confiança nas entidades responsáveis e reduzir a adesão da população às medidas de proteção.
Os princípios fundamentais de uma estratégia de comunicação
Independentemente da duração da onda de calor, existem princípios que devem orientar toda a comunicação institucional. Trata-se de orientações consistentes, aplicáveis a diferentes contextos e essenciais para garantir eficácia, clareza e credibilidade na transmissão da informação.
Apresentam-se, de seguida, alguns dos mais relevantes.
Antecipação
A comunicação deve ser iniciada antes da chegada do calor extremo, e não apenas quando os limiares de alerta já foram ultrapassados.
Sempre que as previsões meteorológicas apresentam um elevado grau de confiança, é fundamental preparar a população para o cenário provável, antecipando riscos e orientando comportamentos preventivos.
Esta antecipação reduz o efeito de surpresa, aumenta a capacidade de preparação individual e coletiva e permite às famílias organizar, com maior eficácia, cuidados adicionais para grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas dependentes. Ao mesmo tempo, reforça a capacidade das entidades públicas de gestão do risco, tornando a resposta mais coordenada e eficaz.
Clareza
A linguagem deve ser clara, direta e acessível, evitando jargão técnico ou terminologia excessivamente meteorológica, que tende a dificultar a compreensão por parte do público.
Mais do que comunicar que um determinado distrito se encontra sob aviso vermelho, importa traduzir essa classificação em impacto real na vida quotidiana das pessoas. Ou seja, explicar de forma simples o nível de risco associado, o que isso significa em termos de exposição ao calor e quais as precauções concretas que devem ser adotadas para reduzir o perigo e proteger a saúde.
Consistência
As mensagens devem assegurar coerência entre os diferentes organismos envolvidos, de forma a garantir uma comunicação pública consistente e facilmente interpretável.
Quando existem diferenças na terminologia, na classificação do risco ou nas próprias recomendações, aumenta a probabilidade de confusão por parte da população e enfraquece-se a confiança nas fontes oficiais. Em contextos de risco, essa perceção de incoerência pode ser particularmente prejudicial, levando à desvalorização do alerta ou à adoção de comportamentos inadequados.
Por isso, a harmonização da linguagem, dos critérios e das orientações deve ser uma prioridade na estratégia de comunicação, assegurando que todas as entidades comunicam a mesma mensagem, ainda que através de canais distintos.
Repetição estratégica
As mensagens mais relevantes devem ser repetidas. Isto porque a investigação em comunicação mostra que a repetição consistente aumenta de forma significativa a retenção da informação.
Ou seja, repetir não significa reproduzir o mesmo conteúdo de forma literal ou contínua.
A informação pode ser ajustada a diferentes formatos, mantendo os mesmos objetivos comunicacionais.
Proximidade
As necessidades não são uniformes entre populações.
Uma junta de freguesia dispõe, em regra, de um conhecimento mais fino da realidade local do que organismos de âmbito nacional.
Essa proximidade permite ajustar respostas operacionais, como horários, localização de abrigos climáticos, contactos úteis e serviços de apoio, às características concretas de cada comunidade.
Porque falham muitas campanhas de comunicação?
Apesar da crescente experiência acumulada pelas entidades públicas, persistem erros recorrentes na comunicação em situações de risco.
Um dos mais frequentes é a comunicação tardia, muitas vezes acionada apenas quando a situação já atingiu níveis críticos. Nessa fase, grande parte das oportunidades de prevenção já foi perdida e a margem de atuação é significativamente mais reduzida.
Outro erro comum é a excessiva centralidade na informação meteorológica. Saber que estão previstos 42 °C é relevante, mas, por si só, essa informação não é suficiente para gerar mudança de comportamento. A eficácia da comunicação depende de enquadramento e tradução prática do risco: o que esse valor significa na vida quotidiana, quem está mais exposto, que comportamentos devem ser evitados, quais os sinais de alerta que exigem assistência médica e onde procurar apoio em caso de necessidade.
Acresce um terceiro problema estrutural: a suposição de que todos os cidadãos acedem à informação pelos mesmos canais. Embora os meios digitais tenham um papel cada vez mais relevante, uma parte significativa da população, em particular os idosos, continua a depender da rádio, da televisão ou do contacto direto com serviços locais.
Uma estratégia de comunicação verdadeiramente eficaz exige, por isso, uma abordagem multicanal, que articule meios digitais, comunicação tradicional e ações presenciais de proximidade. Só assim é possível garantir alcance efetivo junto de públicos com diferentes níveis de literacia digital e distintos hábitos de consumo de informação.
Perante cenários de calor extremo, a prevenção não pode ser apenas uma intenção: tem de ser uma prática coordenada, atempada e adaptada à realidade de cada comunidade.
As entidades públicas devem reforçar desde já os seus planos de comunicação, assegurando mensagens claras, consistentes e verdadeiramente acionáveis.
Por que faz, então, sentido uma boa estratégia de comunicação numa onda de calor?
Faz sentido implementar uma estratégia de comunicação eficaz em contexto de onda de calor em Portugal porque o impacto destes episódios não depende apenas da sua intensidade meteorológica, mas também da forma como a informação é transmitida, compreendida e convertida em ação. Uma estratégia de comunicação e uma assessoria de comunicação e assessoria de imprensa bem estruturadas são determinantes para garantir que as mensagens chegam de forma clara, coerente e atempada à população.
Em situações de ondas de calor em Portugal, a comunicação de risco assume um papel central, permitindo aumentar a perceção adequada do perigo, reduzir a incerteza e promover comportamentos concretos de autoproteção. Sem uma estratégia de comunicação consistente, mesmo os avisos mais rigorosos podem perder eficácia, sobretudo quando existem diferenças entre organismos, excesso de linguagem técnica ou falhas na adaptação aos diferentes públicos.
Assim, uma boa estratégia de comunicação não é apenas um complemento operacional, mas um instrumento essencial de saúde pública e proteção civil, capaz de transformar alertas meteorológicos em decisões informadas e comportamentos preventivos efetivos.
0 comentários